Artigo

Soares, Presidente

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Por Pedro Bacelar de Vasconcelos

E por fim, fez-se justiça! Aquilo que Mário Soares nunca procurou em vida, foi-lhe oferecido depois de morto. Da gratidão pelo seu papel fundador do Portugal de Abril, republicano e democrático, apenas se excluíram, mais novos ou mais velhos, alguns anacrónicos saudosistas do salazarismo. De resto, não houve razões, mágoas ou ressentimentos que perturbassem o reconhecimento do autor e a avaliação da herança que nos deixa e que nos cabe preservar e enriquecer. À homenagem final, compareceram todos os opositores a que deu luta desde a Revolução de Abril. Os adversários que enfrentou no verão quente de 1975. Também os que temeram o fim da tutela militar da revolução, mais tarde, na década de 80. E toda a Direita democrática com que se confrontou até ao fim da vida, em defesa do socialismo, da construção de uma Europa aberta e solidária, contra a guerra, pela paz e fraternidade entre todos os povos.

Da imensa panóplia de testemunhos e depoimentos divulgados nos últimos dias pelos meios de comunicação, Miguel Esteves Cardoso soube captar o traço, porventura, mais inspirador de um perfil complexo e controverso: “Mário Soares era uma pessoa profundamente civilizada e humana. Revia-se nas fraquezas que todos herdamos mas poucos reconhecem (…) Respeitava os outros não porque os outros tinham alguma coisa de especial – mas porque não tinham. Eram seres humanos, cidadãos, compatriotas. E isso chega”. (“Mário Soares deixou-nos e deixou-nos tudo”, Público, 7 de janeiro de 2017). Esta radicalidade igualitária é flagrante na sua atitude perante o poder político, tanto quando o exerce, com aparente displicência, como quando o combate, com provocadora espontaneidade. Eis o sinal de uma tradição socialista, cosmopolita e antiautoritária de que o grande Antero de Quental foi luminoso exemplo. “Não há salvadores supremos, nem Deus, nem César, nem tribuno…” O seu poder era a sua liberdade. A nossa liberdade.

Coube a Mário Soares enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros nos três primeiros governos provisórios a seguir ao 25 de Abril, assumir a delicada tarefa de reabilitar perante a comunidade internacional um país isolado do Mundo por mais de quatro décadas de rústico autoritarismo e profundamente desprezado pela obstinação com que prosseguia em África uma guerra injusta e absurda. Foi Mário Soares quem assegurou o reconhecimento internacional do novo regime e abriu finalmente as negociações do processo de descolonização.

Em fevereiro de 1986, tornou-se o primeiro Presidente civil eleito por sufrágio universal, na história portuguesa. Ao longo de dez anos, em dois mandatos consecutivos, Mário Soares demonstrou o que entendia por uma presidência republicana, laica, civilista, respeitadora da soberania parlamentar, atenta à atividade do Executivo, aberta à sociedade e ao Mundo. E foi ele quem fixou, pela prática por ele inaugurada, os equilíbrios que definem a singularidade do nosso regime democrático.

A vida do Doutor Mário Soares marca dois séculos de história da luta pela liberdade, a paz, a justiça e a democracia. Resta-nos agradecer o seu contributo generoso e seguir o seu exemplo de tolerância, de solidariedade, de coragem e de audácia. Mas são as palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen que melhor o retratam: “Não era só coragem o que nele havia, mas também aquilo que se chama ânimo (…) Não estava ali para ser vencido, mas para travar um combate que livremente tinha escolhido e no qual arriscava sem reserva, sem dúvidas e sem lamúria. (…) Por mim, não esqueço o conforto que me dava nos momentos difíceis entrar na sua casa, (…) ser animada pelo seu ânimo e beber o chá de limão que me fazia a Maria de Jesus”. Para a Isabel e o João, a mais calorosa solidariedade!

Artigo publicado no Jornal de Notícias, janeiro 2017