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Paulo Rangel, a EMA e o Porto

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Por Manuel Pizarro

Vereador do PS na Câmara Municipal do Porto. Presidente da Federação Distrital do Porto do PS

 

A eventual vinda da EMA para o Porto teria enorme impacto na região. Por muito que isso arrelie Paulo Rangel.

O Governo anunciou que vai considerar a cidade do Porto na candidatura nacional à futura sede da Agência Europeia do Medicamento (EMA), assim alterando a sua posição inicial em que apenas contemplava a hipótese de Lisboa.

Numa reação destemperada, mas cada vez menos surpreendente, Paulo Rangel consome uma página inteira do PÚBLICO para criticar com violência as atitudes assumidas por António Costa e por mim em relação a este dossier. O texto transpira azedume, é agreste e ácido. Claro, o político não consegue esconder a frustração por lhe ter escapado um tema para zurzir o Governo. Tudo isso é um padrão de Rangel, e nem vale a pena insistir no tópico.

Mau é que, para sustentar a sua narrativa, produza um conjunto de afirmações que, com bondade, podemos classificar como inverdades; e, com menos bondade, mentiras grosseiras. Corrigir essas inverdades (optemos pela bondade) é algo que quero e não posso deixar de fazer.

No dia 5 de junho, entreguei na Câmara Municipal do Porto (CMP), em nome do PS, uma proposta sobre a localização da agência. Nela, a cidade manifestava a sua perplexidade relativamente à exclusão da sua candidatura. Mas não se limitava a esse protesto, ia mais longe. Assumia também uma atitude proativa, criando um Grupo de Trabalho encarregado de apresentar ao Governo um dossier de candidatura devidamente fundamentado, que obrigasse a que o assunto fosse repensado. Em acréscimo, propus a inclusão nesse Grupo de Trabalho das mais importantes instituições de saúde, do ensino superior e da economia da cidade e contactei cada uma delas para verificar da sua disponibilidade. A partir desse momento, fez-se o debate sobre esta matéria, que foi ganhando volume e visibilidade, na comunicação social e nas redes sociais.

Na reunião seguinte da câmara, e depois de uma dura e prolongada discussão, a proposta acabaria por ser aprovada por unanimidade. Essa aprovação aconteceu depois de eu ter aceitado, assumindo o risco, que lhe fosse acrescentada uma condição, a de que o Governo abrisse a porta à revisão da decisão já tomada. Nessa mesma reunião propus o nome de Eurico Castro Alves, antigo presidente do Infarmed, para funções de coordenação, ideia que, mais tarde, acabaria por ter vencimento.

Na câmara, como nos dias que se seguiram, foi visível que poucos, ou mesmo quase nenhuns, acreditavam que fosse possível reverter a decisão. Ainda assim, mantive com persistência as minhas razões e o fundamento da minha posição. O Porto poderia perder mas, em caso nenhum, poderia deixar de lutar por aquilo que achava mais justo e melhor para o país.

Poucos dias depois, o Governo anunciou então que, face aos argumentos entretanto produzidos, iria reabrir a possibilidade de ser o Porto a cidade a candidatar à localização da EMA. Reagi a essa notícia com natural satisfação.

Rangel irrita-se com as razões para a mudança de posição do Governo e com a forma como reagi. Pudera, como acima disse, perdeu a hipótese de se colocar em bicos de pés… Porque a verdade é que Rangel não tem, em nenhum dos casos, razão. E a forma como critica mostra que, verdadeiramente, não estava, e não está, nada interessado na EMA e no Porto, mas apenas em encontrar motivos de confrontação política.

Ao contrário, devo elogiar a atitude do Governo. Parece-me normal, numa sociedade democrática evoluída, que, quando os pressupostos de uma decisão se revelam infundados, incompletos ou parciais, ela possa ser alterada. Mas no nosso país isso é uma raridade, o que só aumenta o meu apreço pela decisão do primeiro-ministro, António Costa, e do seu Governo. Também assim se demonstra que nem todos os partidos e nem todos os governos são iguais.

Finalmente, o que mais me separa de Rangel é que entendo que este já nem é o momento para o debate estéril que ele procura alimentar. A decisão tomada pelo Governo comprova, da forma mais terrena, quase crua, o particular acerto da intervenção da CMP, designadamente na sequência da proposta construtiva que apresentei em nome do PS. Há, agora, um acréscimo de responsabilidade e temos todos, em conjunto, que nos empenhar em construir uma candidatura que tenha condições de sair vencedora. Este é o tempo do trabalho, em vez da polémica. A eventual vinda da EMA para o Porto teria enorme impacto na economia da região e do país e justifica bem esse esforço. Não sei se vamos conseguir. Mas sei que temos de tentar. Por muito, é certo, que isso arrelie Paulo Rangel.

 

Artigo publicado no Público, julho 2017