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Manuel Pizarro: “Rui Moreira revela-se inseguro e incapaz de confiar na sua equipa”

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Manuel Pizarro: “Rui Moreira revela-se inseguro e incapaz de confiar na sua equipa”

 

Entrevista publicada no Público, 29 de agosto 2017.

Texto: Álvaro Vieira e Margarida Gomes

Fotografia: Nelson Garrido 

 

Manuel Pizarro diz-se optimista quanto ao sucesso da sua candidatura ao Porto, que recusa ver como um sacrifício pelo PS. E garante que já se sente a falta do PS na governação da cidade.Três meses depois da decisão de Rui Moreira de afastar o PS da sua lista independente à câmara, e de obrigar o partido a candidatar Manuel Pizarro, o ex-vereador da Habitação mostra–se confortável nesse papel. E orgulhoso da obra feita no seu pelouro, enquanto fez parte do executivo.

Como se sente neste papel de oposição, ou pelo menos alternativa, àquilo que foi?
Não me sinto oposição àquilo que fui porque não mudei nada no meu discurso em relação à acção da câmara. A nossa participação influenciou a governação autárquica do Porto e somos o partido em melhores condições de representar os interesses do conjunto da sociedade portuense.

Não é fácil fazer campanha contra o parceiro de coligação…
Acho que o truque está em não fazer uma campanha contra ninguém, mas a favor da nossa ideia para o Porto.

 

A haver candidatura autónoma do PS, não teria sido melhor que fosse protagonizada por alguém descomprometido em relação a estes quatro anos, mais livre para criticar Rui Moreira?
Em primeiro lugar, não acho essencial que uma campanha tenha como tema central a crítica aos adversários. Em segundo lugar, as condições concretas eram o que eram. Fomos absolutamente surpreendidos pela decisão do dr. Rui Moreira de romper o acordo, que funcionou bem e que estava perfeitamente estabelecido para um novo mandato — e a verdade é que tivemos de responder de forma rápida, o que conduziu a que o candidato natural fosse eu.

 

A sua candidatura foi um sacrifício pedido por António Costa?
Não, não, candidatar-me a presidente da Câmara do Porto é uma honra e é algo que faço com enorme prazer.

 

Foi apresentado por António Costa com um abraço que muita gente achou que queria dizer ‘Ecce homo, eis o militante para as boas e más ocasiões’. Que, se calhar, merece um prémio mais adiante…
Não faria sentido tentar diminuir o que foram circunstâncias dramáticas. Fomos completamente surpreendidos, tínhamos direito a esperar que a lealdade absoluta que tivemos durante quatro anos tivesse tido correspondência por parte do dr. Rui Moreira. Ainda assim, não escondendo essas circunstâncias difíceis, aceitei ser candidato de forma muito natural e, repito, com muita satisfação. Fraco será o político que se amedrontar perante um combate em circunstâncias difíceis. Mas, francamente, acho que sou a pessoa que está em melhor posição para disputar a Câmara do Porto em representação do PS.

 

O que será um bom resultado para o PS nesta eleição?
Bom é vencer. Aceitável é ter uma subida significativa em relação a 2013. Era menos mau.

 

Era uma subida dos 23% que obteve em 2013 para quanto?
Era um aumento do número de mandatos na câmara. Mas repito: o único resultado que consideraremos bom é a vitória.

 

Não tem pena de não poder dizer alto e bom som que estes quatro anos não deixaram obra nem marca, como um candidato descomprometido eventualmente diria?
Mas tenho muito orgulho na obra que eu fiz. No pelouro que tutelava investimos, nestes quatro anos, 41 milhões de euros que mudaram profundamente a vida de muitas pessoas e deixámos prontos dossiers que conduzirão a que até ao final de 2019 seja completada a regeneração dos bairros municipais. Compreendo que noutros casos não tenha sido possível caminhar com a mesma velocidade.

 

O que está a dizer é: ‘Rui Moreira não tem obra para mostrar destes quatro anos, mas eu tenho’.
Não é preciso dizer nada, porque o dr. Rui Moreira tem-se encarregado de fazer essa campanha, visitando, semana após semana, as obras que foram feitas sob a minha gestão no pelouro. Por exemplo, o novo Bairro Rainha Dona Leonor ou a Ilha da Belavista, são obras feitas pela câmara no seu conjunto, mas, em concreto, pelo pelouro pelo qual fui responsável.

 

Já disse que Moreira não foi correcto na ruptura da aliança. E agora na campanha?
O que vejo na campanha de Rui Moreira é algo que não esperava, é uma enorme crispação. Não apenas com o PS, veja que a primeira vítima até foi o BE, a respeito de uma suposta utilização abusiva do símbolo da câmara nos cartazes, que mais ninguém conseguiu descortinar a não ser o próprio Rui Moreira. Fez uma campanha desabrida contra os anónimos que terão colocado uns cartazes com o “morto.”, o “torto.” [a glosar o logótipo municipal “porto.”].

 

Rui Moreira está nervoso?
Está crispado. Já fez não sei quantas queixas contra o PS por utilização incorrecta do Facebook, enfim, é um estilo que não consigo compreender, sobretudo porque é o mesmo Rui Moreira que tem faltado aos debates. Acho estranhíssimo que um candidato não esteja interessado em debater as ideias que tem para a cidade.

 

Exclui um entendimento pós-eleitoral?
A pergunta tem de ser devolvida a Rui Moreira. Se há três meses achou que o PS era descartável e não teve pejo em romper o acordo, que justificação arranjará agora para nos voltar a chamar? Mas penso que o cenário vai ser diferente, porque se eu for presidente da Câmara do Porto…

 

Chamaria Rui Moreira para completar uma maioria?
Sim, sim, estaria disponível para contar com a sua colaboração.

 

Ele é que já disse que não estava disponível para ser seu vereador…
Essa é uma atitude que Rui Moreira terá de explicar. Farei como sempre fiz: colocarei a cidade e os portuenses acima de tudo.

 

Que tipo de presidente é Rui Moreira? Centralizador?
[Risos] O estilo de Rui Moreira é conhecido. Tem qualidades, uma certa mundividência. Ao mesmo tempo, é um presidente que nos últimos meses se revela muito inseguro e incapaz de confiar na sua equipa.

 

Está-lhe a fazer falta o PS?
Acho que a cada semana isso se torna mais e mais evidente. Veja o caso da Agência Europeia do Medicamento. Ficou claro que Rui Moreira e os vereadores da sua equipa já tinham desistido da ideia e que só foram capazes de a recuperar graças à iniciativa do PS, e a algum embaraço em reprová-la.

 

Quais são as suas três prioridades para o Porto?
Sem esquecer duas das anteriores — economia e cultura —, os principais desafios que se colocam à cidade têm a ver com coesão social, ambiente e mobilidade. A cidade vive um momento pujante sob muitos pontos de vista, mas não é menos verdade que as dores de crescimento são muito significativas. O mais importante é melhorar a rede de transporte público – e fazê-lo, na Área Metropolitana do Porto (AMP), passa pela expansão do metro. Temos que ser realistas, o Orçamento do Estado não poderá financiar uma expansão significativa da rede, o que significa que temos que nos colocar na primeira linha do debate sobre o quadro de fundos que vai começar a ser preparado em Bruxelas em 2018. Devemos ser pró-activos e criar uma representação da AMP em Bruxelas. Há que decidir se queremos ter a cidade cheia de carros por todo o lado. Temos de promover iniciativas de estímulo à mobilidade eléctrica, ao car-sharing, à partilha de bicicletas. E seguir a tendência de uma economia moderna, mais assente na partilha do que na posse.

 

Quando fala no ambiente é nisso que está a pensar?
Infelizmente, estou a pensar, em primeiro lugar, numa coisa mais comezinha: no problema da limpeza urbana que nas últimas semanas se agravou de forma muito significativa.

 

E em termos de coesão social?
Continuamos a ter no Porto uma taxa de desemprego superior à da região e do país e isso acontece, em larga medida, por causa da exclusão social. Por que é que as pessoas estão afastadas mesmo das ofertas de trabalho que existem? Em muitos casos tem a ver com défices formativos que têm que ser colmatados de uma forma quase individualizada. Tem a ver também com aspectos como a saúde oral das pessoas. Muitas têm falta de dentes, têm outros cariados e isso prejudica-as no acesso às ofertas de emprego. Precisamos de uma política à medida para estes casos. Não nos pode ser permitido desistir de ninguém.

 

Falando agora para o líder distrital do PS: em Matosinhos tem dois socialistas candidatos como independentes e uma candidata imposta a uma concelhia revoltada, sem que se perceba por que razão a distrital avocou o processo. Não é um falhanço da federação?
Se o sucesso das lideranças da Federação do Porto fosse medido pelos conflitos socialistas em Matosinhos, não havia nenhuma bem-sucedida neste século.

 

Também houve períodos de grande unanimidade…
Foram fugazes. Nós definimos que a principal prioridade era unir o PS com aqueles que o tinham abandonado para apoiar Guilherme Pinto [1959-2017] há quatro anos. Entretanto, sugiram outras fracturas. Uma era expectável: a decisão de Narciso Miranda de se candidatar. A outra [António Parada] aconteceu. Resta–nos acreditar que os cidadãos de Matosinhos vão perceber que a proposta do PS é muito séria. A seguir à eleição que nos dará a vitória, vamos trabalhar para reunir de novo a família socialista em Matosinhos.

 

E Vila do Conde?
Em Vila do Conde aconteceu uma situação inesperada. A presidente da câmara independente que se candidatou pelo PS em 2013 decidiu não se recandidatar pelo partido. Não pôs isto desta forma, mas colocou questões tais ao PS que isso se tornava impossível. Estou convencido de que também em Vila do Conde os cidadãos não deixarão de reconhecer que a face do seu concelho foi moldada por décadas de competente e dedicada gestão do PS.

 

Em Matosinhos ‘vai correr bem’, em Vila do Conde também. Onde é que as autárquicas se complicam para o PS-Porto?
Estamos em condições de concretizar os objectivos que tínhamos anunciado: ganhar a maioria das câmaras do distrito e recuperar a liderança da Área Metropolitana do Porto que o PS perdeu no já longínquo ano de 1997.

 

Vê estas autárquicas como um plebiscito à sua liderança?
Não de forma tão formal, mas é evidente que também faz sentido que um líder seja avaliado em função de os objectivos eleitorais serem ou não alcançados.

 

Os bons resultados do Governo no défice e no crescimento económico dão uma ajuda ao PS nas autárquicas?
É evidente que a governação de António Costa ajuda o PS. Temos um Governo que cumpre o que prometeu. Em relação ao Porto, o elenco de medidas inclui a expansão do metro, a municipalização da STCP, a reversão das Águas do Douro e Paiva, a que podemos somar a entrega da colecção Miró à cidade, a resolução da situação da Ponte do Infante, a decisão de reabilitar o Liceu Alexandre Herculano, o financiamento da ala pediátrica do Hospital de S. João…

 

Está mesmo optimista quanto à sua candidatura no Porto?
Sou mesmo optimista, mas a recepção que tenho encontrado é muito carinhosa e entusiástica. Devo dizer aos que fazem profecias com base em sondagens, que têm o seu valor, que o Porto já provou muitas vezes que as sondagens se podem enganar.

 

Manuel Pizarro vai ser ‘o Rui Rio de 2001’?
Se ganhar, como espero, vou ser muito melhor do que Rui Rio.

 

Quando é que soube que Rui Moreira tinha um diferendo com a Câmara do Porto por causa da Selminho, a empresa imobiliária da família do actual presidente da câmara?
Soube quando esse assunto foi divulgado pela imprensa.

 

Não acha que devia ter tido conhecimento prévio?
Não. Sinto-me muito confortável com as decisões da câmara quanto à capacidade construtiva do terreno [da Selminho]. É absolutamente normal que isso seja dirimido em sede de Plano Director Municipal (PDM), a favor de qualquer uma das soluções.

 

Sentiu-se sempre informado com o desenvolvimento do processo?
Desconhecia em absoluto que os terrenos [da Selminho] tinham sido adquiridos pelos particulares por usucapião e só soube que pertenciam à Câmara do Porto em Maio ou em Junho, quando isso veio na comunicação social.

 

Considera que essa parte também ficou esclarecida?
Tenho de distinguir bem os dois assuntos. No assunto urbanístico, entendo que a resolução em sede de PDM, com a qual concordei quando participava na governação da câmara, é absolutamente adequada. O assunto da propriedade dos terrenos, para mim, tem uma linha de orientação clara: a Câmara do Porto tem que fazer tudo o que estiver ao seu alcance para que lhe seja reconhecida a posse dos terrenos. Se eles eram da câmara, não me parece que a câmara possa ou deva abrir mão dessa posse.

 

Que espaço vai merecer o caso Selminho na sua campanha?
Zero. Limitar-me-ei a responder, como é minha obrigação, às perguntas que os jornalistas me façam.