Artigo

Mais do que proteger fronteiras é preciso proteger as mulheres

666 Visualizações

 

Por Isabel Santos 

Deputada Socialista. Vice-presidente da Assembleia Parlamentar da OSCE – Organização para a Segurança e Cooperação na Europa

 

Estima-se que em 2015 tenham chegado à Europa mais de um milhão de migrantes e refugiados. Uma ínfima parte dos mais de 65 milhões de deslocados registado no mesmo ano a nível mundial. Um rio de gente onde aqueles que fogem da guerra e das perseguições se misturam com os que fogem da fome e da miséria extrema.

Entre os que chegam, cerca de metade são mulheres, às quais duvido que alguém hoje lembre que é o seu dia.

Se no nosso quotidiano a desigualdade de género pesa, em situações extremas como as vividas nos territórios em guerra, em ambientes de pobreza aguda, e frente aos riscos das rotas migratórias, ganha um peso intolerável.

O papel de cuidadoras nas comunidades faz delas alvos do ataque das forças beligerantes, vítimas de tratamentos degradantes, humilhações e violações, sobre as quais paira uma pesada cortina de silêncio que enche a história contemporânea de crimes sem reparação.

Quando a fome e a miséria batem à porta, os seus efeitos recaem sobre as mulheres de forma extrema.

Os testemunhos dizem-nos que estas mulheres são as primeiras a responder às crises nos países de origem e no trajeto migratório. Nos campos e centros de acolhimento, vemo-las tomar a linha da frente nos momentos difíceis, cuidando das crianças e dos mais vulneráveis.

Sabemos que algumas buscam a reunificação com os maridos, com os filhos, ou outros familiares que já se encontram na Europa. Outras vêm acompanhadas pela família. Outras, ainda, vêm sós e sem qualquer referência de apoio. Muitas das imigrantes falam dos filhos que deixaram entregues aos avós ou outros familiares, enquanto se aventuram na esperança de encontrar um emprego que lhes permita resgatar as crianças da miséria extrema e dar-lhes um futuro com dignidade e segurança.

Não é difícil percebermos nos seus silêncios, no seu olhar e nos pedidos de apoio que fazem às equipas médicas, o tipo de violências a que estiveram sujeitas no local de origem ou durante o trajeto, sobretudo a violência sexual.

Encontrei-as em Lampedusa, nos centros de acolhimento da Catânia, nos campos de refugiados na Turquia, na fronteira entre a Sérvia e a Macedónia. Os olhos baços de quem já chorou todas as lágrimas, de quem assistiu a demasiadas mortes, de quem traz tatuada na pele a miséria. Vi-lhes o desespero e a esperança…

O nível de crueldade das redes de traficantes, sobretudo naquela que, neste momento, é a rota mais frequente de acesso à Europa, a rota do mediterrâneo central, entre a Líbia e Itália, ultrapassa tudo o que possamos conceber de mais terrífico, sendo frequentes as histórias de tratamento desumano, tortura, violações e morte.

Desenraizadas da sua cultura, das sua redes familiares e sociais, vivendo um quadro de incerteza extrema, estas mulheres encontram-se particularmente expostas às redes de tráfico para exploração laboral e sexual, em cujo combate devemos exigir o esforço conjunto dos países de origem, trânsito e destino.

A política de construção de muros e encerramento de fronteiras apenas consegue alimentar as redes criminosas enquanto queima possibilidades de regeneração e codesenvolvimento dos países de acolhimento – sobretudo numa Europa cada vez mais envelhecida e doente – e dos países de origem.

Calcula-se que, no ano de 2015, as remessas internacionais de migrantes para os países em desenvolvimento estiveram acima dos 432 biliões de dólares, quase três vezes mais que a Assistência Oficial ao Desenvolvimento que atingiu mais de 131 biliões de dólares. Boa parte destas remessas terão sido resultado do trabalho das mulheres que assim contribuíram para a melhoria da vida das suas famílias e comunidades e para o fortalecimento das economias de origem e dos países de acolhimento.

Dar visibilidade e voz às mulheres migrantes e refugiadas, ouvi-las no desenhar de medidas de combate à violência, ao tráfico, à exploração sexual e laboral, ao racismo e à xenofobia e de promoção de melhores condições de integração e igualdade de género, é tarefa da qual depende também a construção de um futuro melhor e uma parte importante do muito que urge fazer à escala global, em matéria de direitos humanos e direitos dos migrantes e refugiados.

Por elas, por todas elas, é necessário que se diga basta! Mais do que proteger fronteiras é preciso proteger pessoas! É preciso proteger estas mulheres!