Artigo

Feminismxs: em memória da Gis

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Por Joel Pais

Ativista feminista

 

“Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”

Simone de Beauvoir

 

Assinalamos hoje mais um dia dA Mulher…

Contudo, quando nem a mulher branca, heterossexual, com formação superior e cristã é respeitada e tratada de forma igualitária, o que dizer de todas as outras mulheres? É por elas que escrevo este texto, que o personifico hoje em alguém marcante na nossa sociedade do século XXI: a Gisberta.

Há 11 anos, no dia 22 de fevereiro, morria na nossa cidade uma mulher de nome Gisberta, brutalmente assassinada por um grupo de jovens institucionalizados. A Gis era uma Mulher, transsexual, brasileira, trabalhadora do sexo e seropositiva. O que ela simbolizava, e simboliza ainda infelizmente, para a sociedade (representada naquele grupo)? O ódio. O ódio fruto de um egoísmo que leva à transfobia, à homofobia, à xenofobia e, sobretudo, ao machismo. É esse machismo, fruto de uma sociedade devota ainda ao patriarcado, que nos leva a inferiorizar as mulheres. É esse machismo que que leva a sociedade a inferiorizar ainda mais quem se quer “transformar” numa mulher.

Desde pequenos que ouvimos reclamações quando um rapaz quer ter “brincadeiras de menina” e olhamos com desagrado quando uma rapariga joga demasiado à bola. Mas qual deles “o pior”? O do rapaz, evidentemente! Uma “maria-rapaz” é sempre algo mais aceitável para os pais (por norma), mas um rapaz efeminado não. Porquê? Pois. Porque haveria um rapaz, dotado já de nascença com tanto, “conspurcar” a sua sexualidade com tiques e manias frágeis de rapariga? Qual a necessidade?

As palavras são duras mas todos sabemos que esta (ainda) é a realidade dos dias que correm. Quem é a primeira pessoa a pessoa a sofrer de bullying na escola? Exato, o efeminado. Agora transportemos todo esse ódio para uma mulher transsexual… Como é que uma sociedade, que tem um pensamento tão machista, irá aceitar que uma pessoa do género feminino tenha nascido no corpo errado? O problema não é apenas este. O problema fulcral é como ajudar um ser humano que tem imensas dúvidas sobre o seu corpo, em contraste com a forma padrão como foi educado, ao mesmo tempo que a defendemos deste ódio constante?

A resposta é educação. Educação contra o machismo e todas as formas de ódio e esclarecer desde cedo todas as questões que vão surgindo sobre géneros e sexualidades. Quanto aos adultos, o necessário é mesmo desconstruir o egoísmo, tal como no dia de hoje. Que o dia de hoje sirva também para que a tal mulher branca, heterossexual, com formação superior e cristã, ao exigir que os seus direitos sejam assegurados o faça a pensar também naquela que é negra, lésbica, transsexual e/ou muçulmana.

Por último, que todos/as nós (humanos) saibamos lutar pelos direitos de todos/as e permitir que as leis que foram sido aprovadas e melhoradas por este governo, nas matérias dos géneros e sexualidades, vigorem sempre e evoluam ao lado dos direitos de todas as “minorias”. Que todos/as tenhamos sempre presente que espancar alguém até à morte nunca será algo verdadeiramente humano, seja num caso de violência doméstica, seja num caso de transfobia.