Artigo

Estado bruto

43 Visualizações

Por Isabel Santos

Deputada Socialista. Vice-presidente da Assembleia Parlamentar da OSCE – Organização para a Segurança e Cooperação na Europa

 

É curioso o perfil do Presidente da Chechénia, Ramzan Kadirov, que tem vindo a manter a Chechénia debaixo de mão de ferro. Antigo rebelde. Filho do ex-presidente assassinado, em 2004. Ex primeiro-ministro. Homem de confiança de Vladimir Puttin, distinguido com o título de herói da Rússia e membro honorário da Academia Russa de Ciência Naturais (vá-se lá saber porquê). Kadirov é ainda, imagine-se, o fundador do Campeonato Internacional de Wrestling -Taça Ramzan Kadyrov e Adlan Varayev.

República pobre, onde passados 18 anos ainda se notam as marcas profundas da guerra sanguinária pela independência, a Chechénia vive, neste momento, debaixo da mais completa submissão aos ditames políticos e ao poder económico da Federação Russa.

Para além da uma extensa produção de longas transmissões televisivas, de doutrinação e indescritíveis manifestações de culto da personalidade, como outdoors e pendões com retratos do líder espalhados por todo lado, são habituais os relatos das mais atrozes perseguições e violações de direitos humanos produzidas pelo poder reinante.

Nos últimos dias o foco tem estado centrado na informação veiculada por jornalistas e ativistas LGBT sobre uma vaga de perseguições a essa comunidade, depois de uma manifestação pelos direitos dos homossexuais em Grosny, a capital da República transformada numa espécie de museu do kitsh ao ar livre.

Segundo essas informações, mais de 100 homosexuais foram detidos e levados para um campo de concentração onde estarão a ser sujeitos a tortura, havendo ainda a nota de que três deles, possivelmente, terão sido assassinados. Fala-se mesmo de uma campanha de detenção, em curso, geradora do mais vivo terror.

Nada disto nos pode surpreender, a não ser pelo levar ao extremo aquilo que têm sido, na Federação Russa, as pressões exercidas sobre as associações LGBT e as agressões e perseguições a que os membros dessa comunidade se têm visto sujeitos.

Mas, se dúvidas existissem sobre o que está a acontecer, as declarações do porta-voz de Ramzan Kadirov são profundamente ilustrativas: “você não pode prender ou reprimir alguém que simplesmente não existe na República” – e continua com sintomática eloquência (ironia)- “se tais pessoas existissem na Chechénia, os agentes da lei não teriam de se preocupar, uma vez que os próprios familiares os teriam enviado para um lugar de onde eles nunca mais regressariam”. Mais palavras para quê? Puro Estado bruto! Quando pensamos na evolução da humanidade cai-nos sempre no colo uma qualquer monstruosidade destas para nos lembrar quanta brutalidade se encontra encerrada em parte da espécie.

Entretanto, jornalistas do Novaya Gazeta, que difundiu a notícia, foram ameaçados por um assessor de Kadirov e por religiosos muçulmanos, e a jornalista responsável pela notícia teve que sair de Moscovo. Nada de novo por essas bandas onde jornalistas e ativistas de direitos humanos são frequentemente ameaçados, agredidos, e injuriados.

A Assembleia da República aprovou um voto de condenação, mas é preciso mais e a pressão da opinião pública internacional é sempre o fator importante no combate a estes desmandos. Se outros calam, falemos nós!