Artigo

Descansem em paz!

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Por Pedro Bacelar de Vasconcelos

Deputado Socialista, Professor de direito constitucional

 

A morte não faz sentido nenhum, nem sequer faz heróis ou mártires. Morre-se sempre em vão, porque não é a morte que dá sentido à vida. Só a vida tem sentido: a vida perdida de cada uma das 64 pessoas, homens, mulheres e crianças apanhadas pelo incêndio de Pedrógão.

Um minuto de silêncio foi homenagem demasiado breve. Logo a seguir, levantou-se a algazarra obscena e ensurdecedora de tantos insuspeitos especialistas no combate aos incêndios, em políticas florestais, em redes de telecomunicações, em reportagens e em toda a espécie de urgências – reais ou imaginárias – prontos a debitar análises e receitas milagrosas, na televisão, na rádio, nos jornais, na Internet.

Não admira que com tanta sabedoria, tão democraticamente distribuída, o país inteiro se tenha achado de súbito culpado pela impotência com que vem testemunhando, ano após ano, a voracidade das chamas, a extensão das áreas ardidas, o somatório de cadáveres, a multiplicação das vítimas, os prejuízos incontáveis.

Como nos autos de fé da Santa Inquisição, o fogo purifica mas é o sangue que vinga. De que adiantam todas as análises, relatórios e receitas, se não houver denúncias, condenações e castigos? Precipitadamente, antecipando-se à conclusão dos inquéritos ordenados, já se ouve a exigência de que rolem cabeças para que a culpa não morra solteira. Mesmo que não restem dúvidas sobre a excecionalidade meteorológica que por esses dias varreu a floresta e engoliu tudo o que apanhou à sua frente: árvores, casas, carros, antenas, estradas, seres humanos.

Espetáculo inútil e triste de emoções artificiais, cenas lamechas, julgamentos maliciosos, desprezo pela dignidade das pessoas, caricatura da inteligência humana. Foi necessária uma tremenda catástrofe natural com mais de meia centena de vítimas para que finalmente se perceba a importância civilizacional do Estado, o valor dos serviços de interesse público, o significado da responsabilidade coletiva, o alcance da solidariedade e da defesa do bem comum. Sem o Estado, sem instituições democráticas, sem controlo dos governos, a comunidade degrada-se em bando tribal e a vida transforma-se numa selva.

Dá vontade de desabafar com Alberto Caeiro, em “O guardador de rebanhos”:

“Há metafísica bastante em não pensar em nada”

“O que penso eu do Mundo?

Sei lá o que penso do Mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

(…)

Que ideia tenho eu das coisas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

(…)

O único sentido íntimo das coisas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.

(…)

“Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber que o não sabem?”

Artigo publicado no Jornal de Notícias, junho 2017