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Ano 2077 – Qual será o futuro do Trabalho? 

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Ano 2077 – Qual será o futuro do Trabalho?

Nelson Oliveira

Dirigente Socialista

 

Foi transmitido na RTP1 um extraordinário documentário que reúne depoimentos dos maiores pensadores e cientistas mundiais sobre o que será o Mundo em 2077.

Ao longo da história planetária os Humanos foram agentes interventivos e modificadores do futuro e não meros sujeitos passivos à mudança. Desde a descoberta do fogo, a invenção da roda e as revoluções industriais, medicinais e tecnológicas aos atentados bélicos e ambientais que atingiram o seu apogeu nas grandes Guerras Mundiais, bem como a poluição diária e sem precedentes promovida por todos nós, tudo tem sido dependente da intrínseca acção do Ser Humano.

Dessa forma, houve sempre alguma curiosidade em pensar o futuro. Em 1968, o escritor Arthur C. Clarke escreveu “2001”, adaptado ao cinema na mesma altura pelo realizador Stanley Kubrick onde este tentou projectar o que seria o Mundo trinta e três anos depois com a produção do conceituado filme: “2001 – Odisseia no Espaço”. Nesta obra-prima é possível ver que o Homem já imaginava atingir feitos, descobertas e conquistas bem mais avançadas do que efectivamente se concretizaram, no entanto, a ficção científica também se transformou em realidade alguns anos depois.

Esta projecção mais ou menos acertada do futuro levou a que, por exemplo, a Samsung instaurasse um processo judicial à Apple, contrariando o registo de patente do famoso Ipad – algo que já se vislumbrava no filme de Kubrick – um ecrã tecnológico com diversas funções e aplicações computorizadas.

Para além de todas estas suposições e projecções temporais, temos vindo a assistir que a evolução tecnológica é hoje muito mais rápida que em 1968 e hoje, aquilo que imaginamos para 2077 poderá até ser demasiado redutor para a evolução que efectivamente se registará.

Apesar de tudo isso, existe um claro óbice à evolução. Se por um lado o desenvolvimento é positivo, este poderá trazer evidentes constrangimentos ao Ser Humano e um dos sectores mais afectados é a área do trabalho.

De acordo com Joana Ferreira da Costa (FFMS), “a automação ameaça acabar com 62 milhões de postos de trabalho até 2055 só em cinco países europeus”, existindo uma clara substituição da acção Humana pela maquinaria na componente produtiva e laboral.

É evidente que numa perspectiva teórica e quase que diria romântica, todos concordamos que a evolução tecnológica surge para possibilitar a substituição do trabalho, particularmente o trabalho físico. Aliás, um dos pontos mais interessantes da revolução industrial foi a crescente substituição da produção manual e artesanal pelas máquinas, resultando em melhorias substanciais da economia, repercutida nas pessoas que melhoraram de sobremaneira a sua qualidade de vida.

Perante tal desenvolvimento, hoje já assistimos a uma nova fase evolutiva em que as máquinas tomaram conta dos nossos empregos e nós, criadores únicos daquilo que agora nos pode afectar em termos laborais/sociais, temos que tomar uma atitude concertada para fazer face aos desafios futuros.

É evidente para qualquer pessoa que as entidades patronais tentam obter o maior lucro possível perante o trabalho do trabalhador e, por seu turno, o trabalhador tenta que a entidade patronal lhe retribua através do salário, entre outros benefícios, a recompensa merecida. E é este equilíbrio de forças que iremos prosseguir eternamente.

Contudo, o que temos que questionar é como veremos o sector laboral no futuro?

É certo que o modo como hoje trabalhamos é diferente do passado em que se trabalhava desde o nascer ao pôr-do-sol. Os trabalhadores conquistaram direitos, férias pagas, mais dias de descanso e outras conquistas sociais completamente merecidas, mas se no futuro uma máquina consegue produzir ininterruptamente e com custos infinitamente inferiores aquilo que um trabalhador faz, é óbvio que as empresas irão ter isso em conta.

Parece-me claro que no futuro teremos que fazer um novo contrato social, liderados pelos diversos governos em consonância com a população, de modo a encarar com naturalidade a substituição das pessoas pelas máquinas, mas cumprindo a função primeira que estas tem – melhorar a vida das pessoas.

Porventura, existindo concordância num novo contrato social, teremos que duplicar os empregos actualmente existentes, declarando que o horário de trabalho completo possa ser metade do que temos actualmente (4h/dia) ou concentrar as horas de trabalho em mais dias, trabalhando apenas 3 dias/semana, – tudo isto numa base salarial que seja permitido manter um nível de vida satisfatório.

Como também é evidente, isto acontece num cenário ideal e prototeórico onde as empresas podem ser ressarcidas deste esforço salarial. Para isso os governos tem que cobrar muito menos impostos e terem uma gestão infinitamente mais contida e centrada em aspectos essenciais como a Saúde, Educação e Protecção Social.

Todavia, soluções como o Rendimento Básico Incondicional ou Universal (testado na Finlândia) não me parecem boas soluções uma vez que podem não ser viáveis financeiramente e poderá não promover a integração social de uma pessoa que ficaria cada vez mais afastada do mundo que a rodeia ou criar uma disparidade ainda maior entre classes sociais criando uma falsa sensação de equidade.

Nada do que afirmo e penso é novo.

O Município de Gotemburgo (Suécia) testou durante 2 anos a aplicação de 6 h/dia de trabalho num lar de idosos. A experiência não correu bem financeiramente, uma vez que as próprias pessoas gastavam o mesmo em deslocações/alimentação, entre outras despesas associadas, não havendo grandes resultados quer para os trabalhadores ou para o Município – isto apesar dos trabalhadores terem faltado menos e sentirem-se mais aptos para o trabalho.

Uma das melhores soluções poderá ser uma situação mista entre a experiência de Gotemburgo e a opinião de Carlos Slim. O mexicano multimilionário, em tempos o homem mais rico do planeta, afirmou em 2014 que a semana de trabalho deveria ser reduzida para 3 dias por semana, com maior concentração de horas de trabalho, poupando recursos em deslocações e consecutivamente também aumentando a idade da reforma, o que será espectável com o aumento da esperança média de vida.

Carlos Slim acredita que “além de permitir mais tempo para que os trabalhadores se dediquem à sua vida pessoal – uma semana de trabalho com três dias criaria um maior número de oportunidades para os que se preparam para entrar no mercado laboral”.

Não há soluções milagrosas para aquele que vai ser um dos principais problemas da segunda metade do século, mas urge tomar medidas que promovam acima de tudo o bem-estar da Humanidade e dos Seres Humanos, acima de qualquer interesse corporativo ou financeiro, impedindo desta forma que novas revoltas antidesenvolvimento tecnológico surjam numa espécie de consequências aversivas de uma revolução tecnológica e laboral 2.0.

 

Publicado no Jornal Tornado