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“Ana Catarina Mendes foi bode expiatório nesta história toda”

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“Ana Catarina Mendes foi bode expiatório nesta história toda”

Entrevista publicada no Expresso, 13 de maio 2017.

Texto: Isabel Paulo

Fotografia: Rui Duarte Silva

 

Após quase quatro anos de aparente felicidade parecia que subiriam juntos ao altar. Após horas marcadas por contraditórias torrentes noticiosas, Pizarro e Moreira assumiram o divórcio. O supervereador da autarquia portuense afirma estar por explicar o motivo do rompimento. Liberto de pelouros, o médico de 54 anos está de regresso ao Hospital de São João e à corrida autárquica. Em 2013, teve 22,68% dos votos, mas caso o PS não vença ou não tenha maioria deixa implícito que não se deixará seduzir de novo pelos independentes. Evita usar termos como traição, mas sublinha que jamais faria o que fez Rui Moreira.

 

Nas atuais circunstâncias, ser candidato à Câmara do Porto é um presente ou um castigo?

Ser candidato é um orgulho imenso e uma honra.

 

Mas acabou por ser candidato empurrado…

Não. Há quatro anos, fiz um acordo de governação com Rui Moreira que correu bem. Nessa base, fizemos uma avaliação para prosseguir a aliança. Mas não queremos impor a nossa presença, nem estar onde não somos desejados. Não é a solução que sentia ser melhor, mas é uma solução com que eu e o partido lidamos com absoluta normalidade democrática.

 

Há mais de um ano disse que ninguém no Porto entenderia que concorresse contra Moreira. Como vão agora os eleitores entender?

Depois dos gravíssimos acontecimentos dos últimos dias, perceberão de certeza. As pessoas do Porto percebem que eu não podia aceitar um convite formulado nos termos em que Rui Moreira o fez, condicionando a minha filiação. Diminuía-me a mim e ao PS. Era inaceitável.

 

Se ninguém tiver maioria absoluta, admite nova coligação com os independentes ou dará preferência à esquerda, a sua matriz política?

Neste momento estamos empenhados numa campanha eleitoral para a qual parto em clara posição de desvantagem em relação a Rui Moreira, que é quem ocupa a presidência. Mas que fique claro: os atos dos últimos dias têm consequências para o futuro.

 

A atitude do presidente da Câmara foi uma traição?

Não quero fazer essa qualificação. Mas digo que em caso algum faria o mesmo a Rui Moreira. Os eleitores avaliarão.

 

Não disse preto no branco se enjeita uma aliança pós-eleitoral com Rui Moreira, que já afirmou que tal dependeria da geometria pós-eleitoral. Vai cair de novo na tentação?

Repito que o que aconteceu agora condiciona-nos o futuro. Acho que não é preciso dizer mais nada.

 

A alteração à lei das candidaturas independentes, suscitada por Moreira, foi aprovada pelo PS e CDS-PP e promulgada na segunda-feira passada. Esta reviravolta foi coincidência?

A coincidência temporal é objetiva. Espero que seja mesmo uma coincidência.

 

O PS foi usado e descartado?…

Tenho a expectativa de que seja apenas uma coincidência.

 

Rui Moreira justifica a sua posição com o facto de o PS nacional ter tentado domesticar o Porto.

É uma ideia que não passa num exame de bom senso. Sempre o admirei por não ceder a um discurso populista. Espero que também em relação a isso não me venha a arrepender.

 

Até quando acreditou que o compromisso PS/Moreira era irreversível?

Até sexta da semana passada, já com algumas dúvidas ao longo do dia, mas esperei pela intervenção de Rui Moreira na SIC. Esperei que viesse desmentir as afirmações da sua Comissão Política. O que se viu é que afinal se deixou condicionar pela sua própria Comissão Política e foi nessa entrevista, ao início da noite, que percebi que não havia nenhuma alternativa a não ser a apresentação de uma candidatura do PS.

 

Sabia da reunião da Comissão Política, na quinta-feira à noite?

Rui Moreira teve o cuidado de me comunicar, mas fiquei sempre na expectativa de que não alteraria o que me parecia essencial: colocarmos o Porto e os portuenses à frente de tudo o resto.

 

Esteve presente na reunião da concelhia do PS, sexta à noite?

Não, mas estive em contacto com o líder, Tiago Barbosa Ribeiro.

 

Diz que tomou a decisão de se candidatar quando Rui Moreira afirmou que o convidaria pela competência, não como socialista, mas a reunião concelhia foi posterior…

A cronologia exata é: tomo a decisão de avançar quando ouço a entrevista à SIC, contacto Barbosa Ribeiro e acordamos os procedimentos a adotar na reunião concelhia…

 

Quando começa a reunião, Barbosa Ribeiro já sabe que o acordo está desfeito e vai ser candidato?
Sem nenhuma dúvida.

 

Então como explica que a edição do “JN” Lisboa, que fecha mais cedo, tenha feito manchete “PS cede e mantém apoio a Moreira” e a do norte titule a seguir “PS rompe com Moreira e lança candidato”?
Não comento decisões editoriais de um jornal e admito que o “JN” tivesse fontes aceitáveis que, durante a tarde, imaginassem que a atitude de Rui Moreira fosse diferente da Comissão Política. Na SIC ficou claro que não.

 

Decide antes de falar com António Costa?
Antes.

 

Diz-se que foi António Costa a ligar ao líder da concelhia para romper o acordo pré-eleitoral e a impor a sua candidatura.

Nada disso. Fui eu que decidi, falando com o líder concelhio e, naturalmente, com o secretário-geral do PS. Estávamos a discutir a candidatura à segunda maior cidade do país.

 

E quem ligou a quem?

Fui eu a ligar.

 

A dizer o quê?

Que depois das declarações de Rui Moreira não havia nenhuma condição para manter o apoio do PS. Como disse na Convenção Autárquica, sábado passado, há convites que não podem ser aceites porque apoucam quem os aceita. A alternativa que restava — e uma boa alternativa — era apresentar candidatura. E era eu quem estava em melhores condições de a protagonizar.

 

Sentiu-se humilhado com o convite?

Senti que era inaceitável.

 

Vários dirigentes socialistas referiram que Moreira estava humilhar o PS e António Costa afirmou que era uma questão de dignidade…

Para mim a política não é uma questão de estados de alma. É organizar a sociedade ao serviço do bem comum. O bem comum que nos compete proteger é o dos interesses dos portuenses, razão por que assumi o apoio à candidatura independente.

 

Foi um golpe palaciano do movimento independente?

Não me pronuncio nesses termos. Mas há um resultado evidente: é que o movimento de Rui Moreira fica mais pequeno ao deixar de fora uma parte importante do Porto, que são os socialistas.

 

A culpa do divórcio foi de quem?
É absolutamente claro que a culpa é da Comissão Política, porque Rui Moreira, já depois disso tudo acontecer, continua a dizer que por ele não tinha prescindido do PS.

 

Diz que foi o PS a romper e que se está a tentar reescrever a história. Quem está a mudar a narrativa?

O movimento independente na manhã de sexta-feira anuncia que rejeita o apoio do PS. Isso fica mais claro quando Rui Moreira diz que me convidaria não como socialista. Ora isso não faz nenhum sentido…

 

Equacionou a hipótese de se desfiliar?

Nunca me passaria pela cabeça. Seria até absolutamente extraordinário que a condição de militante de um partido, que nos últimos quatro anos não constituiu problema para a governação da cidade, o fosse para o próximo mandato. As escolhas de lugares para a vereação devem ser feitas em função de competências específicas e não por se ter cartão partidário. Ninguém deve ser excluído por ter cartão partidário. Ser militante de um partido político não é um anátema que se coloque a um cidadão.

 

E foi isso que aconteceu?

Se não foi, pareceu.

 

Reconheceu que a secretária-geral-adjunta foi inábil ao reincidir nas declarações de que o PS teria forte presença nas listas de Moreira.

Foram inoportunas, mas também as relativizo. Logo na manhã seguinte esclareceu que nunca quis pôr em causa a independência de Moreira. Pergunto é porque se deu tanto valor às declarações iniciais e se desvalorizou de forma dramática o esclarecimento.

 

Depois de lhe ligar a puxar as orelhas?

Chamei-lhe a atenção para o incómodo. Agora tentar culpar Ana Catarina pelo que aconteceu é tentar encontrar um bode expiatório para uma decisão da Comissão Política de Rui Moreira, cuja explicação está por fazer.

 

Após anos de elogios a Rui Moreira, o que levará os portuenses a votarem em si?

Não vou mudar o meu discurso sobre estes quase quatro anos. Foram anos de boa governação, mas toda a gente percebe que houve grande participação do PS. Não vou abdicar de reivindicar essa participação.

 

Não está constrangido em fazer campanha contra Moreira?

De maneira nenhuma, até porque vou fazê-la pela positiva, sem mudar uma vírgula à minha avaliação da gestão autárquica.

 

Isso significa que não abordará o caso Selminho?

Eu não sei o que é o caso Selminho.

 

Não? Votou em reunião de Câmara que em sede de PDM ou resolvido por uma Comissão Arbitral…

Não há nenhum caso Selminho. Não é assunto para mim.

 

É um processo que pode indiciar conflito de interesses por envolver a imobiliária da família Moreira.

Não há nenhuma decisão ilegítima em relação ao processo. É pelo menos o meu ponto de vista. Não vou mudar uma vírgula sobre o passado em que participei.

 

E o PS?

O PS por mim protagonizado não vai desdizer o passado.

 

Mas não será o único a participar nas ações de campanha.

O PS nesta campanha tem um representante e chama-se Manuel Pizarro. Quem fala em nome da candidatura do PS à câmara sou eu. Não vou permitir, em situação alguma, que se faça uma campanha de casos, de insinuações e ataques pessoais. Isso menoriza a política. Se o PSD e a oposição arranjam um escândalo de conflito de interesses contra Rui Moreira, é por serem incapazes de participar de outra forma na dinâmica do Porto. Nisso não vou alinhar, nunca.

 

Apesar de agora estar na oposição?

É-me indiferente. Combaterei pelo Porto com armas políticas legítimas e não com campanhas de difamação. As campanhas negras são o pior lado da vida política. Já só estou concentrado no futuro.

 

Está arrependido de ter sido o mentor do apoio à recandidatura independente?

Quem tem de estar arrependido neste processo é quem se deixou condicionar por uma Comissão Política. Eu estou muito orgulhoso do nosso contributo para a governação autárquica. Comportei-me com absoluta boa-fé. Agora a nossa obrigação é avançar junto dos cidadãos com o nosso projeto de cidade para as eleições de 1 de outubro.

 

Após o divórcio como está a sua relação com Rui Moreira?

Farei o que estiver ao meu alcance para manter a amizade com ele. É saudável separar o combate político da relação entre as pessoas.

 

Como classifica os dois dias que abanaram o Porto?

Abalaram o Porto, não a mim nem ao PS. Não temos nenhum medo ou angústia em disputar as eleições. O PS é um grande partido, com uma grande história no Porto e parte para este combate eleitoral com serenidade. Os portuenses saberão julgar a nossa atitude e trabalho.

 

Para alegria da fação do partido, de Assis a José Luís Carneiro, que nunca viu com bons olhos este namoro, muito menos que o PS abdicasse de ir a votos, algo nunca visto desde o 25 abril?

O PS é um partido plural e é normal que haja opiniões diferentes. Mas não há nenhum órgão do partido que não tenha apoiado a nossa estratégia.

 

Qual foi a reação de António Costa quando lhe propôs que abdicasse da candidatura do PS?

Compreendeu desde início o sentido estratégico. Não tendo o PS vencido em 2013, a colaboração com a candidatura independente não colocava em causa os valores do PS. Aliás, a governação do Porto está impregnada dos nossos valores.
Sempre disse que não havia mercearia e negociações com Rui Moreira. Foi uma narrativa para não ferir a suscetibilidades da candidatura independente?

Essa nunca foi a questão. O PS apoiou sem objetivos de distribuição de lugares…

 

Não estava subentendido que o PS teria o 2º, 5º e 8º lugares?

Não vou revelar o conjunto de conversas que tive com Rui Moreira. Mas não houve discussão de lugares. Os convites seriam feitos por Moreira, tendo em conta competências sem valorização de natureza partidária.

 

Não é uma ingenuidade comprar um fato à medida de Rui Moreira sem saber qual é o preço?

Era uma posição séria de um partido que coloca o interesse geral à frente de visões partidárias estreitas.

 

Então Ana Catarina Mendes inventou o tal peso de representação?

Fê-lo tendo em atenção o peso que a vereação socialista teve na gestão do Porto. Era a representação que achava provável. Não percebo que isso ofenda Rui Moreira.

 

Sabe quem foi o dirigente do PS que sondou Júlio Magalhães para protagonizar um plano B?

Nem ele sabe quem foi. É uma suposição que tenha sido alguém do PS. É ridículo.

 

Quem será melhor presidente da câmara?

Julgo que serei eu. Embora parta em desvantagem em relação a Moreira, julgo que o PS sairá vencedor.